Tempestade geomagnética (G2) – bem em cima de nós

Conforme havíamos registrado na ultima postagem estávamos prevendo que nos últimos dias de nossa viagem  de setembro de 2017 deveríamos ter a chegada de uma forte radiação vinda do sol, modificando o campo magnético da Terra, o que poderia promover fortes auroras boreais. Para melhorar, estaríamos no nosso chalé isolado em Kilpisjarvi, vilarejo no extremo norte da Finlândia, com quase nenhuma luz artificial em um raio de centenas de kilometros, com um dos ares mais límpidos do continente. Outro ponto que nos animava é que a previsão para todo o fim de nossa viagem era de tempo bom, sem nuvens…

Ao chegarmos nos chalés, recebemos o jantar de boas vindas da equipe local e logo após nos estabelecermos, preparamos tudo para aquela noite que prometia. Baterias eram carregadas, tripés separados, câmeras ajustadas, tudo pronto para o que deveria ser a grande noite da viagem.

Logo que acabou de escurecer eu saí do chalé e fiquei frustrado ao não achar nada uma vez em que pelos gráficos onde acompanhávamos o plasma formador da aurora boreal,  tudo nos levava à crer que ela já deveria estar aparecendo. Porém, alguns minutos depois o arco começou a se formar e o pessoal começou a sair dos chalés. Logo propus à todos sairmos dali para um local completamente escuro, isolado, mas muito próximo –  cerca de 5 km dali. Saímos rapidamente de forma a não perdermos o show que já havia começado…

Ao chegarmos, as luzes da aurora sumiram, do nada desapareceram, como se tivessem desligado o disjuntor. O céu estava escuro, algo estranho estava acontecendo… Passaram 10 minutos e nada, 15 minutos…. Eu comecei a ficar sem graça, a tal “explosão luzes” espetacular que eu havia  “prometido” – ainda que informalmente – desde os primeiros dias de viagem –  ao dizer ao grupo que a tal radiação especial vinda do sol deveria chegar naqueles dias, era pra se tornar realidade, ali, naquela hora. Era gigantesca, como sempre, minha vontade de mostrar a todos o que era uma aurora forte, de responder a todas as perguntas sem precisar usar as minhas palavras. Estava louco em poder dividir minha paixão e tudo dependia daquele momento, do vai ou não vai..

Em determinado momento eu falava com um companheiro de viagem:

–  É , tá bem estranho hoje, era pra ter uma mega aurora acontecendo e esse céu tá assim, apagado….

De repente, quando acabei de falar , olho para atrás e no horizonte, sobre a linha dos pinheiros e bétulas, por sobre um poste de transmissão,  surgem luzes fortes,  como holofotes verdes, parecendo um incêndio florestal repentino e do nada, anunciando que o show iria começar.

Já tinha visto aquele tipo de “entrada”, me empolguei, avisei que a coisa seria séria e que, naquele momento,  eles conheceriam o que eu tanto falara antes…

O horizonte  norte começou a “arder” e formar pilares de luz vindos em nossa direção, logo depois a aurora boreal tomava conta de tudo, em todas as direções, dançando loucamente, parecendo estar baixa, à poucos metros de altura, quase ao alcance das nossas mãos.

O fato de estarmos isolados e bem longe das luzes artificiais, sem qualquer lua, aumentava a sensação de assombro e mesmo tendo presenciado a aurora tantas vezes aquela noite ela me assustava. Depois eu saberia que ela tinha atingido o nível KP6, tempestade geomagnética G2, um nível bem alto e que quando se pode ver em um local escuro, sem lua e isolado como Kilpisjarvi, se torna incrível e marcante para o resto da vida.

Um dos diferenciais nas viagens com nossos grupos é que sempre buscamos viajar sem grande interferência da luz da lua, o que ajuda na maior nitidez da aurora.

Os videos e fotos abaixo mostram pouco do que vivemos naquela noite:

Abaixo a aurora vista de dentro do nosso chalé quando retornamos:

2 filmagens em tempo real da explosão e tempestade geomagnético do dia 28/09/17.

Mesmo eu, com tantos anos presenciando essas luzes, poucas vezes vivi momentos como aqueles. Confesso que fiquei realmente assustado, meio que em transe. Em determinado momento sai sozinho e entrei na floresta de galhos para fotografar, sozinho, com olho fixado nas luzes do céu… Fui andando, me afastando do pessoal e quando vi estava isolado no meio do nada, clicando sem parar. De repente, olho pro lado, uma rena passava com seu galho, quase roçando meu corpo, por pouco não tomei uma chifrada de rena no escuro….rsrsrs.  Nessas horas a pessoa surta um pouco!

Naquela noite, tentei mas não consegui dormir, fiquei horas na cama, com a adrenalina à mil. Imagino quem nunca tinha visto algo parecido…

A conclusão que uma vez cheguei com o meu amigo Francisco Mattos, outro brasileiro especialista em filmar auroras e que mora no Ártico, de que quando vemos uma super aurora boreal sempre parece ser a mais forte de nossa vida mais uma vez se mostrou correta. É realmente isso!

Em nosso último dia na Lapônia da Finlândia fizemos a tradicional despedida com sauna, comes e bebes, mergulho no lago e banho de jacuzzi. Na manhã seguinte pegamos a estrada para retornar ao nosso hotel em Tromsø na Noruega, de onde havíamos saído dois dias antes.

Abaixo a foto clássica na fronteira norte da Finlândia x Noruega:

Chegando em Tromsø para a nossa última “caçada” a sorte continuava ao nosso lado, tempo aberto, céu estrelado e, surpresa, acabava de escurecer e a aurora já podia ser vista até mesmo de nosso hotel, na beira do fiorde, bem no centro da cidade grande, com 80 mil habitantes.

Em muitos anos frequentando Tromsø, poucas vezes pude ver a aurora de forma nítida do centro, dessa vez ela estava bem bonita.

Fizemos nossa última saída para ver as luzes do escuro mas nosso grupo tinha visto a aurora tantas vezes que alguns de nossos passageiros preferiram ficar por ali mesmo, vendo a aurora no maior conforto. Foi o caso do Eduardo Ferraiuolo, que  clicou as belas fotos acima da cobertura de nosso hotel.

Assim, terminou nossa jornada de setembro, dando início a temporada 2017/2018 da aurora boreal Geotrip. Neste domingo, dia 15, embarco novamente com mais 19 brasileiros esperando ter novamente bastante aproveitamento e fazer uma nova grande viagem.

Obrigado a você que leu até aqui.

Em breve novas postagens.

Abraços

Daniel Japor

 

 

4 thoughts on “Tempestade geomagnética (G2) – bem em cima de nós

  1. Daniel, me considero um cara com muita sorte por ter visto as luzes em 7 de 8 noites de caçada. Foram diversos tipos e formas de aurora, incontáveis cores e infinitos sentimentos.
    A viagem foi muito, mas muito além das minhas expectativas, onde o ponto alto foi a tempestade em Kilpisjärvi, como você descreveu muito bem neste post. E a cereja do bolo foi arriscar não sair com vocês na última noite atrás das luzes torcendo p/ a Aurora bombar e ter a experiência de ver o show sobre um centro urbano.
    E por último, mas não menos importante, tive ainda a oportunidade de conhecer excelentes pessoas e fazer novas amizades…que grupo sensacional!
    Mesmo após uma semana de voltar p/ casa, não consigo pensar em outra coisa.
    Obrigado, obrigado, obrigado e obrigado.

    1. Valer Edu, eu me sinto um privilegiado em ter você conosco, essa vige boa, intensa, focava, direcionar, o papo reto na busca das luzes nos ajudou muito. Esperamos te-lo aqui conosco outras vezes. NYC e Tromso, seus 2 novos lugares comuns…abs

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